Painel Agentes Religiosos

01
Atuação de agentes religiosos italianos na Mancha Valente

O papel de agentes religiosos católicos/as para a geração de uma nova consciência social em municípios do território Sisal, principalmente nos pequenos agricultores e suas famílias, na década de 70 do século XX, gerou um sentido de organização comunitária. Isso foi fruto da constatação de que a exploração e a pobreza tinham motivação na concentração de renda e na ganância humana, isto é, não eram realidades que Deus havia determinado para as vidas daqueles/as trabalhadores/as. Tal processo libertador de base foi viabilizado por uma educação informal de natureza sociorreligiosa, calcada em valores de luta, organização e transformação social, disseminados principalmente por alguns padres e freiras italianos/as que vieram atuar na Diocese de Feira de Santana, à qual pertenciam, por exemplo, o município de Valente e outros circunvizinhos.

02
A chegada dos padres/freiras italianos/as e seu trabalho comunitário

No final da década de 60 e, em especial, na de 70 do século XX, a chegada de religiosos/as (padres, freiras) italianos/as ao Território do Sisal, onde se localiza a Mancha Valente aqui denominada, é referenciada como fator relevante para a politização das famílias que viviam em situação de pobreza ou miséria durante a ditadura militar brasileira (MAGALHÃES; ABROMOVAY, 2007, p. 111), principalmente as residentes na zona rural. Esses religiosos atuaram por meio de pastorais, como a rural ou agrária, e na formação/atuação das comunidades eclesiais de base (CEBs), fruto de uma vertente politicamente engajada da Igreja Católica.

Devido à inegável influência de tal instituição sobre a sociedade brasileira, “[…] possivelmente, os espaços de resistência que ofereceu durante o Regime Militar foram determinantes para que adquirisse esse papel de destaque […]”, segundo Nascimento (2014, p. 2). Outros pesquisadores, a exemplo de Jesus (2016, p. 120), citam a atuação significativa dos padres italianos Aldo Giazzon, Luciano Cason e Luiz Canal na Paróquia Sagrada Família, de Valente-BA, com reflexos em cidades próximas, como agentes ou vetores para a organização política camponesa e comunitária (JESUS, 2016, p. 11).

Os municípios de Retirolândia, São Domingos, Nova Fátima, Riachão do Jacuípe, Ichu, Candeal e Conceição do Coité vivenciaram processos inter-relacionados. Nesse último, um reflexo nítido ocorreria mais tarde, precisamente a partir do final da década de 1980, por meio da atuação do padre Luiz Rodrigues na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, como bem ressalta, em mais de um trabalho de pesquisa histórica, Miranda (2011, 2012, 2016).

Quanto ao município de Valente, em pleno regime militar, por meio do método histórico-crítico “ver, julgar e agir” (em perspectiva construtivista e pedagogicamente libertária), padres/freiras italianos/as aqui referidos/as, com o apoio de leigos/as, empreenderam uma educação evangelizadora crítica, que extrapolava tanto os aspectos bíblicos puramente dogmáticos como a atuação dentro das paredes da igreja como templo em si. Promoviam reflexões sobre as condições materiais de vida das pessoas envoltas em complexas privações, fruto da concentração de renda e da exploração político-social e humana em sentido amplo (MAGALHÃES; ABROMOVAY, 2007, p. 112).

As CEBs, reflexo dos desdobramentos do Concílio Vaticano II (1962-1965), incentivadas pela Teologia da Libertação e precedidas por movimentos importantes de militância sociorreligiosa (como a Juventude Operária Católica (JOC), a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Estudantil Católica (JEC)), atuaram por meio de grupos que aliavam a reflexão política com a dimensão do sagrado (IOKOI, 1996). Nascimento (2014, p. 1) identifica o peso da contribuição desses agentes religiosos através das CEBs e contextualiza que, na Conferência Episcopal Latino-Americana realizada em 1968, em Medellín, os bispos decidiram que as comunidades eclesiais de base constituiriam uma das prioridades da Igreja Católica.

Há membros da Igreja, daquela época e de hoje, que entendem essa forma de atuação de alguns padres/freiras, nas décadas de 1960 e 1970, como algo mais a cargo deles/as enquanto sujeitos autônomos do que reflexo das diretrizes institucionais católicas em si. Essas, aliás, foram modificadas a partir da década de 1980, numa espécie de retomada de aspectos dogmático-sacramentais mais estritos. Silva, S (2006, p. 131) explica esse movimento de ação político-social com reações e mudanças dentro da Igreja. Segundo ele, ainda que os valores do Cristianismo primitivo de combate à pobreza tenham sido muito bem acolhidos no continente americano com a Teologia da Libertação, essa conviveu com a dialética apoio/resistência e foi fundamental para transformações sociais em contextos específicos, como a ditadura militar brasileira.

03
Testemunhos de paroquianos e influências valorativas para a ação dos agentes religiosos

O depoimento do leigo valentense Luiz Mota, a partir do 27º minuto do vídeo dedicado a rememorar os 50 anos da Paróquia Sagrada Família (2017), menciona o trabalho dos padres italianos Luciano, Luiz e Lívio, que trouxeram, segundo ele, “um novo jeito de ser igreja”, que motivava, no povo, a organização popular, o que os pesquisadores também confirmam.

Conforme os vigários da Paróquia Sagrada Família – que, nesse período, englobava os municípios de Valente, Retirolândia e o distrito de São Domingos –, as CEBs foram estabelecidas em decorrência da situação de pobreza que vivia grande parte da população local, sobretudo da zona rural que compunha a esmagadora maioria. Essas medidas adotadas pelos párocos estavam seguindo as diretrizes e prioridades da Igreja no Brasil. Nos documentos e relatos analisados, não detectamos outra força política e/ou religiosa que tenha atuado na organização dos trabalhadores rurais do município, apenas a Igreja. (NASCIMENTO, 2014, p. 1).

Ainda segundo tal pesquisador, os religiosos italianos que atuaram na Paróquia Sagrada Família levaram os trabalhadores rurais a entenderem o potencial transformador da realidade pela organização de base ou comunitária contra toda forma de opressão e violação às suas dignidades. Mais que estudos dos ensinamentos bíblicos e sua aplicação na vida cotidiana, “[…] esses sujeitos, auxiliados pelos padres, reinventaram esse espaço e estenderam mudanças para além de suas comunidades e dos objetivos institucionais definidos pela Igreja” (NASCIMENTO, 2014, p. 6).

Assim, por meio da militância sociorreligiosa das pastorais e das CEBs, durante mais de uma década, em Valente e cidades circunvizinhas, os pequenos agricultores e suas famílias foram despertando para a constatação de que a pobreza não era um fenômeno natural ou divino, mas decorrente da forma desigual de distribuição dos bens e rendimentos da sociedade. Em outro trabalho, Nascimento (2014, p. 17) explica:

A riqueza que seria gerada pela exploração do sisal não era compartilhada com os trabalhadores rurais, que viviam em situação de pobreza. Segundo os registros do livro de tombo da Paróquia Sagrada Família sediada em Valente, documento que tinha como objetivo registrar tudo aquilo que fosse de importância em seu território de abrangência, foi por conta da pobreza dessa população que a Igreja decidiu dar início às ações pastorais, especialmente nas comunidades rurais deste município. A atuação ocorreu por intermédio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), tendo como marco inicial o ano de 1973.

A inspiração valorativa para a atuação diferenciada desses agentes religiosos, tanto os estrangeiros como os nascidos no Brasil, remonta à Guerra Fria e à sua livre adesão a princípios/valores comunistas, que, na Itália, encontraram forte inspiração em Gramsci.

Uma outra “reforma” ainda mais profunda daquelas sinalizadas por Gramsci acontece na Igreja a partir dos anos 1960, desta vez, proveniente na América Latina. Aqui, insurgindo-se contra as ditaduras impostas nos anos da “guerra fria” e denunciando a longa história de colonialismo, escravidão e dominação, aguerridos setores de cristãos impulsionados por suas crenças religiosas e municiados de instrumentos analíticos de derivação marxista se posicionam politicamente ao lado das reivindicações populares e promovem audaciosas atividades sociopolíticas juntamente com uma inovadora elaboração teórica. Além de denunciar as injustiças sociais e as atrocidades instauradas pela selvageria do sistema capitalista, fazem uma corajosa “opção pelos pobres” que os leva a atuar nas periferias e entre os setores mais marginalizados da sociedade. Resgatando as lutas dos “oprimidos” disseminadas ao longo da história do continente sul-americano e teorizadas de forma original na pedagogia (FREIRE, 1970,1981), na filosofia da “libertação” (DUSSEL 1977, 1994; CERUTTI, 1983), na teoria da dependência (MARINI, 1973; SANTOS, 2000) e nas criações artísticas, a “igreja popular” impulsionada pela Teologia da Libertação vocaliza a resistência contra as múltiplas formas de opressão e consolida propostas que visam superar o modelo dominante de sociedade. (SEMERARO, 2017, p. 94-95).

Assim, o “Jesus Cristo Libertador” (BOFF, 1972) da Teologia da Libertação, potencial valorativo do trabalho popular das CEBs, encontrava na educação religiosa politicamente engajada, pedagogicamente libertadora, de vertentes gramsciana e construtivista, nascentes inspiradoras dos ideais desses homens e mulheres religiosos/as. Com efeito, além de padres que vieram atuar no que se denomina Mancha Valente, houve também freiras (MAGALHÃES; ABROMOVAY, 2007, p. 111). Por isso, embora elas não tenham sido referenciadas nominalmente nos trabalhos científicos aos quais se teve acesso, indaga-se:

  • Como se deu a participação de religiosas mulheres, freiras especificamente, junto a esses padres italianos que foram atuar em Valente e região?
  • De que forma poderia ser mais visibilizada a participação delas?
  • A comunidade se recorda dos seus nomes, assim como são referenciados os dos padres italianos em depoimentos, trabalhos científicos e outros registros?

 

04
Um método para a superação da pobreza

“Ver, julgar e agir” compreendia, como método histórico-crítico desses religiosos/as em contato com as comunidades rurais, especialmente as mais afetadas pela pobreza, levá-las a identificarem um problema grave que as prejudicava; em seguida, a dialogarem sobre tal problemática em pequenos grupos, tendo por base alguma passagem do Evangelho; e, finalmente, proporem possíveis soluções ou estratégias para reversão daquela realidade (ABRAMOVAY; MAGALHÃES, 2007, p. 112). A ação católica via círculos bíblicos, com inspiração crítico-libertadora no referido Concílio Vaticano II e por meio de uma educação sociorreligiosa informal, é apontada – por autores como Silva, C (2006, p. 25) – como a nascente das comunidades eclesiais de base.

Assim, entraves ou fatores prejudiciais ao desenvolvimento humano dos pequenos agricultores/as, suas famílias e sujeitos despossuídos eram discutidos por esses padres italianos, freiras e leigos/as imbuídos, na Mancha Valente, do mesmo sentido educativo-transformador. Aqueles/as que sofriam as consequências de tais problemas (fome, doenças, falta de saneamento básico, analfabetismo, enriquecimento de poucos em detrimento da exploração do trabalho rural etc.) passaram a vê-los sob o ângulo de uma fé conscientizadora e engajada.

Segundo Novaes (1997), tais agentes aprofundavam a compreensão de um determinado problema social sob o ângulo da fé, relacionando questões exemplificadas no Evangelho a explicações político-sociais. Nascimento (2014) ratifica essa análise voltada à década de 1970, notadamente a partir de 1973, até o início da seguinte, quando detectou os primeiros registros sobre as CEBs em Valente, que foram intensificando, gradativamente, suas atividades na interface igreja/comunidades.

Tais articulações comunitárias tiveram importante suporte e estímulo nas pessoas leigas, pois os padres e freiras não davam conta, sozinhos/as, de todas as mobilizações. A complexidade do social gerou atuações conjuntas com entidades representativas, como os sindicatos dos trabalhadores rurais na região sisaleira. Segundo Nascimento (2014) e outros pesquisadores, o sindicato de Valente foi fundado em 1971 sem qualquer participação efetiva da classe trabalhadora, mas, em 1974, houve a reconhecida “tomada do sindicato”, para que, à sua frente, estivessem, efetivamente, representantes de trabalhadores/as rurais.

05
Atuação sociorreligiosa das comunidades eclesiais de base (CEBs)

A ação da Igreja por meio das CEBs e pastorais na Mancha Valente, entre os anos de 1973 a 1983 com maior intensidade, gerou desdobramentos político-sociais e espaços de socialização política que “[…] permitiam que os trabalhadores produzissem uma nova percepção do mundo à sua volta” (NASCIMENTO, 2014, p. 38). Isso promoveu a compreensão da força de “[…] se unir, organizar, participar, negociar e lutar; a elaboração da identidade social, a consciência de seus interesses, direitos e reivindicações; finalmente, a apreensão crítica de seu mundo” (GRZYBOWSKI, 1991, p. 59-60). Por isso, ao entrevistar lideranças e moradores da zona rural, Nascimento (2014, p. 38-39) conclui:

As ações pastorais emergem na memória dos entrevistados como elemento medular no que diz respeito à organização dos trabalhadores, precedente de todos os processos de luta que viriam a partir dali. Ao criar um espaço para fomentar estudos bíblicos, as CEBs também favoreciam o diálogo acerca de temas diversificados, como a busca por justiça social, tendo em vista a sua necessidade frente à pobreza em que viviam seus integrantes. Desse modo, podiam ser debatidas formas para alcançá-la, e um dos caminhos consistia na organização comunitária.

Além de temas propriamente religiosos, as reuniões das CEBs transversalizavam as questões relacionadas às condições precárias de vida dos menos favorecidos. Mesmo incomodando pontuais grupos ou famílias oligarquicamente mandatárias dos micropoderes locais, essa atuação fortaleceu o sentido da luta coletiva e comunitária para superar realidades como a concentração de renda pela exploração do trabalhador no campo via atravessadores. Os círculos bíblicos e mutirões exemplificam estratégias organizadas pela Igreja e outras entidades com objetivo de fortalecimento da organização comunitária:

A prática do mutirão, que compreende o ajuntamento de diversas pessoas para realizar algum trabalho para benefício de um indivíduo ou da coletividade, costumeiramente era empregada pelos trabalhadores rurais, especialmente nos tempos de colheita. Mas, ao ser apropriada pelas CEBs, ela adquiria um fim didático: orientava seus componentes a entenderem a ajuda mútua enquanto algo essencial para diversas atividades, reforçando o discurso que permeia os registros de que as ações pastorais visavam encaminhar a população para o despertar para o trabalho comunitário. (NASCIMENTO, 2014, p. 39-40).

A essa altura, pode-se questionar: as comunidades eclesiais de base constituíram a principal ou mais preponderante forma de atuação da Igreja (em Valente e municípios vizinhos) para a geração do sentido de organização comunitária nos pequenos agricultores e suas famílias?

06
A “pastoral da distração” e o Movimento de Evangelização Rural (MER): educação revolucionária?

Diversamente do que ocorreu em outras regiões brasileiras durante o regime militar, o trabalho educativo-libertário da Igreja católica em Valente e municípios vizinhos revelou-se, na dupla interface religiosa e político-social, uma forte educação informal (PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, 2010, p. 146) de valores bastante influentes em processos/acontecimentos interligados ao mesmo sentido libertador das famílias em situação de pobreza. Esse processo, portanto, era contrário às forças oligárquicas e hegemônicas locais concentradoras de renda.

Pesquisas tomando por objeto a forma e a amplitude da atuação sociorreligiosa de agentes católicos na Diocese de Feira de Santana – a exemplo da dissertação de Jesus, de 2016, cujo recorte analítico vai de 1962 a 1985 – dão conta de que o trabalho dos padres italianos em Valente e cidades vizinhas na década de 1970 afigurou-se, em certa medida, uma espécie de educação revolucionária, muito além da atuação como Igreja em si. Padre Aldo Giazzon, um dos bem atuantes em Valente na década de 1970, com os padres Luciano Cason e Luiz Canal, em entrevista a tal pesquisador, afirma:

Naquela época, nós éramos ligados à Ação Católica, que depois virou o MER (Movimento de Evangelização Rural). Depois, esse movimento mais adiante, nos anos já depois que eu saí de Amélia Rodrigues, virou um movimento político; era um movimento […] de educação revolucionária e, quando os grupos se conscientizaram, passou de um movimento religioso a um movimento mais político que ainda existe hoje um resquício lá no Rio Grande do Sul; no Nordeste, foi a Pastoral da Terra. (GIAZZON apud JESUS, 2016, p. 119).

O Movimento de Evangelização Rural (MER), segundo Jesus (2016) ainda parcialmente estudado pela Igreja católica no Brasil, teve reflexos na Diocese de Feira de Santana por alguns anos. O sentido transformador contra-hegemônico da atuação dos padres via MER (junto aos mais pobres durante o período do regime militar), mesmo contando com agentes religiosos não adeptos da guerrilha ou uso de armas, conforme Jesus (2016) explica, ocorreu de modo parcialmente clandestino.

O Movimento é resultado de uma reavaliação da experiência da Juventude Agrária Católica (JAC) e, segundo as informações coligidas durante a 10ª Assembleia dos Dirigentes das Comunidades Populares (MCP), registradas no livro “Narrativas da Desigualdade: Memórias, Trajetórias e Conflitos” de José Sergio Leite Lopes e no site Consciência.Net por Alder Júlio Ferreira Calado com o título “Movimento das Comunidades Populares”, foi quando definiram a memória deste movimento, dividindo sua história em quatro etapas, sendo a primeira fase do Movimento durante o período de 1969-1979, momento no qual se apresentava como um grupo semiclandestino e que mudava de nome conforme a região do país, com sua base constituída de pobres do meio rural. (JESUS, 2016, p. 118-119).

Freixo (2009) explica que o MER encontrou na Igreja católica, durante a ditadura militar, um “abrigo” que o potencializou pelo contato dos agentes religiosos com os oprimidos, politizando-os por meio de “[…] reuniões de lideranças, o apostolado da oração e o sindicato, que parecem sintetizar o elo religioso-sindical presente no MER” (FREIXO, 2009, p. 97). A autora contextualiza o surgimento desse movimento em Cajazeiras, na Paraíba, e nomina de “militantes” os que nele atuaram, creditando-lhes “[…] uma importante mobilização social que, em Valente, se traduziu na organização política de uma massa de camponeses que culminou na formação das primeiras comunidades e numa reorientação política do Sindicato de Trabalhadores Rurais” (FREIXO, 2009, p. 96). Segundo a pesquisadora, o Movimento de Evangelização Rural

[…] teria sido resultante de uma reavaliação da experiência da Juventude Agrária Católica (JAC), fortemente reprimida no período da ditadura. Com base nesta experiência de Cajazeiras, religiosos italianos teriam decidido por iniciá-lo em Valente, vinculando-o inicialmente à Pastoral Rural, onde encontrou certo refúgio para se desenvolver ao longo da década de 1970. O foco de ação do MER era fundamentalmente o meio rural, em que pese sua futura ramificação para o meio urbano, principalmente devido ao deslocamento das primeiras lideranças comunitárias para os bairros periféricos da cidade. Este movimento reunia, para os militantes do MER, princípios como reflexão-ação (que inclui leitura bíblica, reflexão do evangelho e ação social), solidariedade, participação e sindicalismo, para destacar os mais fundamentais. (FREIXO, 2009, p. 97).

Os círculos bíblicos em Valente constituíram, em certa medida e naquele momento histórico, uma roupagem religiosa ou disfarce institucional de um processo semiclandestino (JESUS, 2016, p. 122) formativo de valores/princípios libertários de natureza popular e comunitária. Por meio desse processo, segundo o padre Aldo Giazzon, leigos, pequenos agricultores, lideranças e padres dialogavam criticamente sobre os acontecimentos, em todos os níveis, relacionados à política, à justiça social, à cultura, à democracia, ao papel da religião na sociedade, etc., na contramão do que se esperava da Igreja em tempos de regime militar. “Era o tempo em que, para a opinião de esquerda, a religião era o ‘ópio do povo’, enquanto, para nós, a religião correta levava o povo a se conscientizar e a exigir os seus direitos sem partir para a guerrilha” (GIAZZON apud JESUS, 2016, p. 119).

As reuniões, no âmbito das comunidades, foram inicialmente concebidas como “círculos bíblicos”, nas quais era feita a leitura da bíblia à luz da experiência cotidiana das pessoas que participavam. É importante registrar o papel conferido a essas reuniões como espaços de formação de lideranças e de fortalecimento do movimento, à medida que todas as decisões e encaminhamentos traçados nas reuniões deveriam obrigatoriamente ser retornados às bases. (FREIXO, 2009, p. 97).

Para dar continuidade a esse processo, padre Aldo, segundo Jesus (2016), cumpria agendas religiosas tradicionais na igreja matriz no centro de Valente, trabalho alcunhado como “pastoral da distração”, sendo um disfarce para que a educação sociopolítico-religiosa no campo não fosse interrompida por opositores. Tal pesquisador (2016, p. 120) explica que os padres Luciano e Luiz “[…] percorreram, em um ano de trabalho pastoral no meio rural de Valente, 40 mil Km, realizando os Encontros do Evangelho (círculos bíblicos) nas famílias desta comunidade”. Nelas, desenvolveram “[…] o sentido de comunidade e organização das mesmas, necessário para uma conscientização destes sujeitos numa vinculação que passava por fé e vida” (JESUS, p. 120). Isso é confirmado por Carneiro (apud Jesus, p. 120), quando explica que o padre Aldo

[…] fazia com que o pessoal não acompanhasse o que os outros padres estavam fazendo, entendeu? Ele fazia a tapeação política com a missa domingo, com essas coisas, e os outros iam para fazer reuniões nas bases do meio rural; tanto que, até hoje, Valente tem ainda… Foi que iniciou um trabalho bom do meio rural, foi com esses padres e não é em vão que Valente, por exemplo, fez a APAEB. Lá foi adiante, você procura hoje e encontra no meio rural um pessoal muito bem engajado desse tempo. A Pastoral que Pe. Aldo era encarregado era a ‘Pastoral da Distração’.

A fala de D. Angelina, da comunidade do Papagaio/Valente, registrada por Alessandra Freixo, retrata um tema do cotidiano utilizado pelos agentes religiosos para viabilizar a reflexão sobre a exploração social do trabalhador rural geradora de concentração de renda, a partir da alegoria “entre a enxada e a caneta”:

Vieram os padres, vieram fazer reunião aqui, que não tinha. Naquele tempo, a gente não sabia de nada, não entendia nada. […] Tinham três italianos, foram quem fez o povo crescer aqui viu! […] Eles fizeram a pergunta do trabalho. Qual era o trabalho mais importante, se era o trabalho da enxada […] ou se era o trabalho da caneta. Eu acho que é o da enxada mesmo. Era a enxada mesmo, porque se não tivesse o trabalhador, o povo da caneta não vivia, não podia viver. Porque, quem dava de comer aos sabidos da caneta? Era o trabalhador da enxada. (FREIXO, 2010, p. 103).

Ante o exposto, questiona-se:

  • Essa atuação contra-hegemônica da Igreja foi o principal marco desencadeador da progressiva organização das/os trabalhadoras/es de Valente e cidades vizinhas em prol de melhores condições de vida (refletidas na menor pobreza detectada na Mancha)?
  • Após tais padres/freiras deixarem a região na década de 1980 e a Igreja assumir um papel mais religioso formal, as sementes por eles/elas lançadas (na década anterior, em especial) continuaram gerando frutos de organização comunitária nos pequenos agricultores e suas famílias?
  • Há, hoje, ainda, reflexos de tal atuação? Quais exemplos podem ser elencados, decorrentes desse trabalho de tais agentes religiosos de formação/atuação crítica, refletidos atualmente na Mancha Valente?
  • Pode-se creditar, à atuação diferenciada desses agentes religiosos política e socialmente engajados naquele momento histórico, o gérmen da cultura associativista que se destacaria, nos anos seguintes, na Mancha Valente?

 

07
Referências

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